De perto ou de longe, quem é normal, afinal?

Quem é normal, afinal? O Dr Simão Bacamarte do conto “O Alienista” de Machado de Assis acreditava saber a resposta, pelo menos no começo da história. Mas, um por um, foi trancafiando todo mundo na Casa Verde, cada um por uma doidice diferente, até que só sobrou ele de normal em Itaguaí. Concluiu então, num surto de sanidade, que se todo mundo era maluco e só ele não, era ele que não estava entre a média e o desvio padrão, portanto não fazia parte da Normal estatística. Bacamarte acabou soltando todo mundo e mudou-se para a Casa Verde.

O conto de Machado é de 1882. Nessa época Freud estava recém formado em Medicina e apenas começando as pesquisas que o tornariam célebre. Nesse mesmo ano conheceu Dora, sua mulher, e tornou-se amigo de Breuer, que apresentou-lhe aquele que pode ser considerado o caso inaugural da Psicanálise.

Já na sua alvorada os estudos sobre o inconsciente tiveram que lidar com a impossibilidade de estabelecer as fronteiras objetivas da sanidade, mas tampouco esse foi o seu objetivo. Tratava-se era de buscar mecanismos para auxiliar os pacientes a conhecer e enfrentar, ou suportar, as motivações inconscientes de seus sintomas e sofrimentos. Já que muitos deles não tinham razões fisiológicas verificáveis.

Talvez porque as preocupações com a saúde da mente tenham derivado das preocupações com a saúde do corpo e a medicina psiquiátrica tenha sido a pioneira no campo, ainda hoje persiste uma ideia ingênua de existe a normalidade e existe a loucura e que passamos de uma a outra como da temperatura normal para a febre quando o termômetro marcou mais de 37graus.

Existem padecimentos mentais severos que podem tornar bem difícil a vida social de um paciente. Mas todos nós temos lá nossas manias, nossas teorias, nossas vozes internas, nos certezas absolutas, nossas vaidades e uma porção de outras coisas que muitas vezes nos provocam sofrimento sem que saibamos disso. São feitas da mesma matéria que a grande e assustadora “loucura”.

Por incrível que pareça, muita gente ainda hoje deixa de procurar um psicanalista por acreditar que, com isso, assinará o seu atestado de abestado perante a família e os amigos. Quem jurando sã consciência já não foi chamado de louco(a), neurótico(a), histérico(a), depressivo(a)… numa discussão com parceiros, parentes ou amigos? E a sugestão doce e cheia de veneno… “você deveria procurar um analista, acho que vai te fazer bem”, quem já não ouviu? Quem também já não disse coisa parecida para alguém?

É como se um acusasse o outro de louco, para não ter que encarar as próprias loucuras. Nesse caso aquele que procura o analista, perdeu. Confessou sua loucura antes, logo posso continuar me achando normal. Um pouco disso é o nosso medo real de sermos loucos, mas parte disso é a nossa certeza de que somos mesmo, somada ao pavor de que os outros descubram isso e nos abandonem.

A boa notícia é que isso é mais ou menos assim com quase todo mundo. Traçando a média e estabelecendo o desvio padrão essa loucura é a Normal.

Os “normopatas”, esses sim, mais dia menos dia farão companhia a Simão Bacamarte na Casa Verde.

Newton Molon – Psicanalista

Consultório: Praça Oswaldo Cruz, 124 CJ 21 – São Paulo – Fone: 8229 2937

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