Um diagnóstico do Dr House

Estou cercado por fãs do Dr Gregory House e acabei virando um pouco fã dele também. A série americana criada por David Shore é mesmo envolvente e Hugh Laurie é um desses homens homens, charmoso e bonitão, que inspiram identificação ou escolha por objeto sexual. E a claudicância do personagem só acrescenta-lhe erotismo, ou não?

House não tergiversa, vai direto ao assunto; diz o que acha que é preciso dizer, com as palavras mais claras que sabe dizer. Não vacila, age; transgredindo, se achar necessário, qualquer regra que não seja a sua. Não contemporiza, explicita os conflitos gerando o caos. Sua inteligência é superior, ele não erra, ou não erra erros desnecessários ao seu acerto final. Nenhum afeto pessoal oblitera sua razão. House, na vaidade dele, caga e anda para a vaidade dos outros, para as fragilidades dos outros, para os outros. Usa, manipula, mente, joga, conspira… Dr House seria um psicopata, enfim. Só não é porque é um neurótico obsessivo meio cruel e sua obsessão é descobrir a doença do paciente. Descobrir a doença, não a cura, a cura é sempre fácil e está nos manuais, até a bissexual e terminal, Treze, pode realizar. Mesmo sendo heróico no seu jeito bruto de salvar, parece inacreditável que um personagem assim possa ter tantos de nós como fãs!

Quem de nós suportaria muito tempo o House como amigo? Como pai? Como amante? Como marido? Como chefe? Mesmo que possa nos fortalecer, quem saudável aprecia ser desprezado por quem admira ou ama? Mesmo que o outro diga dizendo que é para nos salvar, quem lida tão bem com a verdade dura e pura ouvida de alguém, quanto com a verdade dura e pura dita aos outros por nós? Em outras palavras: somos fãs do House porque também nos achamos heróis meio cruéis que querem salvar os outros? Porque queríamos um herói que nos salvasse, mesmo que ele fosse meio cruel, ou porque ele é o psicopata do bem que gostaríamos de ser?

Me ocorre que talvez seja por outra razão. Pode ser que nos identifiquemos simplesmente com um House que é interessante, capaz, genial e bom por natureza, mas incompetente para criar os vínculos de que precisa e sabe que precisa. Inapto para o convívio. Inibido para desejar o que de fato deseja. Solitário. Infeliz. E que, mesmo assim, segura sua onda, sente suas dores sem chorar ou lamentar. Quando não suporta sua condição, perde o controle e faz merdas sem noção. Mas sem culpa e com arrogância, deixa simplesmente que as coisas se reparem sozinhas, ou não, até acabar a temporada.

Newton Molon – Psicanalista

Consultório: Praça Oswaldo Cruz, 124 CJ 21 – São Paulo – Fone: 8229 2937

2 comentários

    1. Já faz tempo que vi, Mariana, e não vi tudo. Hoje não teria paciência para ver de novo. Mas se tivesse, acabaria escrevendo outra coisa a partir de outra visão deturpada que eu acabaria tendo, pois todas as nossas visões são um pouco deturpadas, seja lá o que isso signifique exatamente, ou não? Obrigado, mesmo assim, por ter deixado um comentário no post.

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