A maldição do ciúme

Acho difícil amar sem nenhum ciúme. Quando amamos alguém, quer queiramos ou não, “alguém” é objeto de “amamos” e é aí que começa o problema. O amado só é objeto do nosso amor, mas é sujeito de todo o resto, inclusive dos seu suposto amor por nós e isso, que deveria ser natural, quase sempre nos acarreta alguma dificuldade: ser também objeto e não apenas sujeito do nosso próprio objeto de amor.

Ora, há séculos estamos aprendendo que são nossos os nossos objetos e que devemos zelar por eles, pois só assim eles deixam de ser dos outros. Zelar vem do grego zelumem, de onde vem também ciúme. Temos, então, que ter algum ciúme do que acreditamos nosso. Se elegemos alguém como objeto do nosso amor, desejamos preservá-lo da eleição por um outro também. Mesmo que ele como sujeito não faça questão disso. Digamos então que uma parcela desse áspero sentimento está no pacote em que vem também as nossas fantasias de completude.

Esse ciúme “normal”, contudo, é diferente daquele em que o zelo pelo outro se transforma em medo desesperador de perder o objeto amado. Por conta das próprias e antigas fragilidades, o ciumento neurótico se transforma em guardião incansável do seu tesouro, elaborando sofisticadas estratégias de proteção e fazendo intermináveis vigílias. Sofre e faz sofrer enquanto tenta inutilmente realizar sua auto-atribuída missão. Não suporta a ideia de se ver privado de tamanha fonte de satisfação e de vida. Nesse caso, aferra-se ao seu amor como se ao peito materno nos primeiros dias de vida. E Lacan falaria desse ciúme algo como “uma identificação com o irmão pendurado no seio da mãe”. O ciúme neurótico e, assim, patológico de um, ou de ambos, costuma ser um dos grandes e mais comuns entraves à felicidade conjugal.

Existe, contudo, um terceiro e muito mais grave tipo de ciúme. Shakespeare trata dessa maldição em Otelo, o mouro de Veneza cujo ciúme paranóico é o grande responsável pela tragédia. Escrita no começo dos século XVII, a peça conta a história de inveja, intriga, ciúme, assassinato e suicídio que se passa na magnífica ilha de Chipre. O maduro general Otelo, guardião da ilha contra os turcos e a serviço de Veneza, vive sua glória e seu amor com a jovem Desdêmona. Iago, um de seus alferes, perdeu uma promoção para Cássio, preferido de Otelo, e passou a odiar tanto o general quanto o colega de armas. Decidiu vingar-se de ambos e para isso contou com a ajuda de sua mulher que possuía trânsito com Desdêmona. Sapiente da alma humana, Iago foi fazendo com que Otelo passasse de uma ligeira desconfiança, até a absoluta certeza de que sua amada o traía com Cássio, seu confidente e leal amigo. Em sua malévola astúcia, Iago fez com que um lenço pertencente à mãe de Otelo e presentado a Desdêmona fosse encontrado em posse de Cássio. Diante dessa “evidência incontestável”, Otelo já não consegue mais qualquer controle sobre seus horrendos demônios e mata Desdêmona, asfixiando-a: “Assim, confessa francamente a culpa, pois se com juramentos contestasses ponto por ponto, em nada isso alterara ou sustara o propósito em que me acho e que gemer me faz. Urge que morras.”

Deixando de lado a inocência de Desdêmona, obviamente desconhecida por Otelo no momento do crime, será que no lugar dele qualquer um teria vontade de fazer o que ele fez? É bem possível que sim, pois em algum momento a frustração seria tanta que a agressividade poderia trazer à cabeça uma solução extrema como a aniquilação da causa externa do sofrimento. Mas será que no lugar de Otelo qualquer um seria capaz de fazer o que ele fez? Felizmente não. Desejar e fantasiar não torna ninguém nada, nem criminoso. Atuar sim mas, entre um estágio e outro, existe toda a história e a constituição de cada sujeito. Uma maldição que se abatesse sobre todos, logo deixaria de maldição.

Newton Molon – Psicanalista

Consultório: Rua Apeninos, 429  CJ 213 – São Paulo – Fone: 999487116

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