Afetos repetidos do mundo virtual

Não sei a gravidade do problema, mas algumas coisas no cotidiano das pessoas nas redes sociais merecem atenção, quem sabe cuidado. Refiro-me basicamente à falsa ideia de espontaneidade que parece inspirar as interações e os afetos do mundo virtual.

Não se trata de propor uma teoria da conspiração, mas reparem no Facebook, por exemplo. Para a grande maioria dos usuários e para mim especialmente existem mistérios insondáveis no funcionamento da rede social e os exemplos são muitos. Nunca sabemos o critério das fotinhos de amigos que aparecem no nosso perfil. Nunca sabemos a lógica de quem aparece em cima on line no chat. Nunca sabemos exatamente quando e porque a ação de um outro aparece em nossa timeline. Nunca sabemos com segurança quem vê e quem não consegue mesmo ver o que fazemos na rede. Nunca sabemos se aquela pessoa, que certamente entenderia a piada e curtiria, chegou a ver o post.

Mesmo assim, os diversos botões, links e configurações de privacidade nos dão a ilusão de que estamos no comando de nossas vontades, ações e possibilidades de afetos, só que acabamos ficando mais “amigos” e/ou inimigos dessas pessoas que estão mais presentes em nossa tela. Tendendo a gostar mais delas e do que elas gostam, ou não. E não fazemos a menor ideia de como essa tela se forma na nossa frente.

No mundo real, ou no virtual, que já não é menos real, os afetos tendem a surgir sempre entre pessoas que convivem. Não tem muito cabimento amar ou odiar o desconhecido ou o distante. É na presença de um e do outro que os afetos brotam, nem que a presença seja uma pequena foto vista sempre que estamos diante do computador.

Normalmente já não somos tão livres para estarmos presentes apenas onde e quando queremos. Nem para nos apresentarmos apenas diante de quem desejamos. Também está prejudicada nossa espontaneidade nos relacionamentos, mas penso que as contingências do trabalho, do estudo, da família… e suas consequências sobre a nossa presença e a nossa ausência aqui e ali são mais conhecidas, são talvez analógicas. Nas redes sociais somos incorpóreos, somos digitais e ainda não sabemos bem como funciona essa nossa digitalidade, embora estejamos afetados por ela e afetando com ela.

Quem está condicionando, então, os nossos afetos nas redes sociais ao desenhar uma tela com fulano e beltrano, mas cicrano não? Nenhuma divindade e nenhum grande satã, apenas robozinhos de rastreamento, ou indexadores, que tentam mapear nossas regularidades e detectar nossas afinidades, cumprindo incansavelmente seus algoritmos.

As redes sociais são fascinantes, mas são afinal conservadoras, não podem contemplar a nossa capacidade de mudar de querer a qualquer momento e de se identificar com outra coisa, por qualquer coisa. É da natureza dela simplesmente ofertar-nos a repetição.

Newton Molon – Psicanalista

Consultório: Praça Oswaldo Cruz, 124 CJ 21 – São Paulo – Fone: 8229 2937

1 comentário

  1. Newton, só sei que alfinetadas via face afetam e tem sido motivos de sessões de análise dos meus analisandos: “aquele post era prá mim, tenho certeza”. Aquilo que não é dito diretamente tem sido refigurado nos post´s ou aquilo que se é imaginado tem-se concretizado via palavras. É um duelo entre o Real e o Imaginário.

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