Te perdoo porque é melhor para mim

Edmond Dantes, o Conde de Montecristo, do romance de Alexandre Dumas escrito em 1844, não conseguiu perdoar a traição de seu amigo Fernand Mondego. Fez de seu rancor a força necessária para sobreviver ao cativeiro no Castelo d’If, escapar brilhantemente e dar a volta por cima, cobrando, em grande estilo, a fatura de cada um dos responsáveis pela injustiça de que foi vítima. Abstenho-me de reproduzir a trama sórdida em que foi enredado no começo da história, digo apenas que a vingança foi muito justa e bem feita. Não sei dizer, contudo, como seguiria a vida do Montecristo depois que acaba a revanche e o livro, afinal, foi quase toda uma vida com um único objetivo, pouco produtivo, diga-se de passagem. Poderia listar outras fascinantes histórias da literatura, do cinema, ou das novelas que simplesmente não existiriam se perdoar fosse tão fácil. Aliás, parece que deus não quis incluir essa exigência nem no decálogo bíblico, foi seu filho que tentou no capítulo de oferecer a outra face da edição revisada.

É porque, de fato, perdoar não é fácil. E nem poderia ser. Quando nos sentimos agredidos, traídos, descartados, vilipendiados, injustiçados… é porque fomos mesmo, pelo menos na nossa própria perspectiva que, no fim, é a única que conta quando se trata de uma agressão ao nosso ego. “Nós que somos tão perfeitos, não merecíamos tamanha acusação de imperfeição!” Para nós mesmos, o ataque é real, o risco evidente e a dor é verdadeira. Diante disso, deixar a ofensa nos perfurar pode ser devastador, acatá-la pode nos esvaziar e deprimir. Proteger-se então é necessário, mesmo que seja devolvendo agressividade ao outro. E é melhor quando a agressividade escorre para fora, contra um objeto específico, do que quando ela permanece difusa e empoçada dentro de nós. O rancor é essa agressão que não foi, que ficou inibida e quando o rancor é intenso, podemos chamá-lo de ódio. Quem odeia não está deprimido, mas o ódio também faz mal de verdade, não é moral religiosa. Muitos de nossos padecimentos nascem dessas máculas. Mas o ódio pede para sair e sai para destruir: vingança! Ele clama. Muitas pessoas odeiam todos para não morrer sufocados pela própria agressividade, sentem-se vítimas de alguma profunda, desconhecida, mas imperdoável ofensa.

Não defendendo a vingança como remédio para as injustiças que sofremos, apenas aponto sua pertinência como mecanismo de sobrevivência. Gosto muito de ver e ler histórias de vingança, como também gosto das de grandes trapaças e de amores bandidos, talvez porque as ache muito humanas, mas nesse texto, o que defendo mesmo é o perdão. E como o entendo? Um pouco como aprendi com Freud, um pouco como li em Andre Comte-Sponville, um pouco como experimentei na vida.

Ofensas não são simples palavras, gestos ou atitudes, são palavras, gestos ou atitudes que são servidas banhadas num afeto muito nocivo para o nosso Eu. Perdoar não é necessariamente esquecer e esquecer não é obrigatoriamente perdoar. Se tenho boa memória posso lembrar exatamente a palavra pronunciada e ela já não me danificar; ou então nem lembro o que foi dito, mas aquele afeto ruim continua me corroendo. Perdoar também não é desconsiderar, porque se desconsidero não estou de fato afetado; se estou, posso até não pensar a respeito, o que não muda o afeto. Ser piedoso tampouco é perdoar, talvez seja apenas a renúncia a causar no outro algum sofrimento pela reparação devida.

Penso que perdoar não é algo que se faça pelo outro, de modo algum. Perdoar é outra forma de lidar com a agressão sofrida, sem devolver, sem sucumbir a ela, sem deixar empoçar em mágoa, em ódio. É para nós mesmos que perdoamos e só para nós. Acredito que perdoar é lidar com a consistência e com a forma do nosso Ego para que o mundo não o ameace tanto. Não se trata propriamente de fortalecê-lo, talvez o contrário. O perdão é um lance no sentido de manter o Ego íntegro, fazendo-o contudo mais elástico, poroso, “sfumatto”, quase confundido com o todo. Deixando entrar e deixando sair não por fissuras e com jorros, mas como se dentro e fora não fossem tão estranhos e hostis um ao outro. Perdoar é aprender do outro e de si mesmo para seguir adiante transformado e mais capaz de viver sem medo o que a vida tiver para oferecer.

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