Esperança: a vida em stand by

Penelope

Homero disse que quando acabou a guerra em Tróia, todos os heróis gregos foram retornando rapidamente aos seu lares, menos Odisseu. Esse campeão teve problemas no caminho de volta. Foram incidentes, imprudências e sabotagens que o mantiveram, além dos dez anos da guerra, mais dez anos longe de Ítaca, cidade onde era rei. Longe também de sua mulher, Penélope.

Como as demais esposas de heróis, a rainha esperou resignada por seu marido durante todo o conflito, mas depois que acabou a guerra e os maridos das outras já estavam de volta, Penélope continuou a esperar Odisseu por mais uma década inteira. Todo mundo dizia que era inútil continuar esperando, pois era óbvia a morte do rei. Os súditos reclamaram, alguns tentaram usurpar o poder e, depois de um tempo, acabaram exigindo que a rainha arranjasse outro soberano. Certa de que, apesar do prognóstico, o marido ainda voltaria, Penélope usou uma artimanha para protelar a decisão sobre um novo casamento; disse que o faria após tecer, com seu tear, uma manta para o novo leito nupcial. Como se sabe, a manta nunca que ficava pronta, porque tudo que Penélope tecia de dia ela mesma desmanchava de noite, acabaram descobrindo. No final da história, vinte anos depois portanto, Odisseu regressa mesmo, mata todos os “golpistas sedutores” e reassume o trono e o leito imaculado de Penélope. Essa história não é só uma história de amor, ela é também uma história de esperança e de obsessão.

A esperança é mais uma dessas coisas que temos, mas não sabemos em que parte de nós habita. É sentimento, mas é desejo, um pouco percepção e nada disso também. Não temos rédeas para domá-la e não a descartamos simplesmente quando achamos prudente. É potente, insistente, resistente, a última que morre segundo o dito popular. Talvez porque a esperança já seja quase a própria morte. Um pouco dessa morte que temos em nós e, sem a qual, não conseguimos viver. Nosso dispositivo de stand by da vida.

Digo que a esperança é uma espécie de stand by (para não falar das pulsões em Freud) na medida em que a esperança é contida, silenciosa, impotente, solitária e imóvel, mas é uma aposta no que ainda não foi. Na medida em que exige adiar o viver por prazo indeterminado, por um instante ou para sempre, quem sabe, mas não é a renúncia completa ao viver. Na medida em que faz uma fantasia sobre a vida ser mais forte do que a própria vida. Que loucura a de Penélope! Vinte anos contida a espera de viver de novo com um marido que não sabia se vivo ou morto? E se malograsse a Odisseia? E se Odisseu nunca mais tivesse voltado? O risco foi muito grande. Nesse sentido, como não pensar a espera de Penélope também como uma teimosia do presente? O presente não me diz que é ou será, me diz o contrário, mas continuo achando que pode ser e faço tudo como se pudesse mesmo, obsessivo em minha fantasia.

Sem deixarmo-nos morrer um pouco de vez em quando, explodiríamos de ansiedade. Da mesma forma, sem alguma neurose obsessiva pouco realizaríamos em nossas vidas. Porque temos um passado feito de dias que também já foram incertos, acreditamos que haja um futuro e novos dias por viver e ansiamos por eles, então escovamos os dentes. Ao deitar à noite, deitamos com a esperança de que, logo logo, o sol estará lá de novo, iluminando o dia. Não agimos em relação a isso, não temos o que fazer, somos incapazes, apenas esperamos fantasiando que sim: stand by. Mesmo assim, obsessivos e teimosos, deixamos separada a roupa que vamos vestir e, se amanhece, saímos para trabalhar e continuar a nossa obra. Em maior ou menor grau, somos todos Penélopes, cada um de sua própria quimera homérica.

3 comentários

  1. Quintana dizia que a esperança é um urubu pintado de verde, rs. Acho que ele tinha razão; mesmo assim, é bom rirmos de nós mesmos, da “teimosia do presente” e de escovarmos as ilusões e os dentes que de todo modo irão cair.

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