O medo d(n)a Cuca

 

Boi, boi, boi… boi da cara preta… pega essa criança que tem medo de careta. Nana neném… que a Cuca vem pegar.

Sempre achei que com outra melodia e outro tom, essas canções de ninar poderiam aterrorizar qualquer criatura. Assim como também sempre achei uma tremenda sacanagem esse negócio de dizer pra criança que a mãe morre se o chinelo ficar virado, ou a cama desarrumada. Isso para não falar em “bicho papão”, “homem do saco” e outras figuras horrendas da infância. Parece que o medo desde muito cedo, nas nossas vidas e na história da humanidade, foi utilizado para nos deter e controlar. Medo da ira divina, do diabo, da morte, da dor, da privação, da perda, do abandono, do outro. Mas o terrorismo dos adultos, religiões e governos não inventa os medos, pelo menos não sempre, é mais comum que ele simplesmente sopre uma brasinha que já arde tímida dentro de nós. Somos naturalmente medrosos como somos pensantes, uns mais, outros menos.

O medo vem no canivete suíço da  nossa espécie e é de extrema utilidade para a nossa sobrevivência, não há porque maldizê-lo; muitas vezes nos desvia dos perigos, outras tantas salva mesmo a nossa pele. O medo nos protege enfim. Pensando em termos neurológicos, é como se tivéssemos um dispositivo cerebral que funcionasse na base do “não arrisque”. O que vem em sua direção pode ser só uma bola de papel, mas pode ser também uma pedra, e como não deu para identificar de pronto, na dúvida é melhor desviar, vai que…

Esse medo, assim simples, está ligado a nossa experiência rememorada de desprazeres e ao desejo de evitá-los da próxima vez: uma vez uma pedra bateu na minha cabeça e doeu, gostaria então de não sentir isso de novo. Freud, salvo melhor juízo, não distinguiu exatamente o medo da “ansiedade” e consideraria esse caso citado como “ansiedade objetiva”, que está relacionada a perigos reais. Nossa ansiedade objetiva operou, portanto, para livrar-nos da dor já conhecida de uma pedrada.

Mas já disse algum sábio chinês, que o tolo é o que não aprende nem com os próprios erros, e que o astuto é que aprende até com os erros dos outros. É nossa sina que a experimentação não seja sempre suficiente e não seja sempre necessária. Vale dizer que nem sempre ficamos com medo de repetir nossas próprias experiências desastrosas e nem sempre que estamos com medo, é por causa de algo que já aconteceu conosco. Isso porque viver com medo é insuportável, só que os perigos possíveis continuam sendo infinitos. E, para lidar com esse paradoxo, às vezes nos defendemos, fugindo do que nos causa medo, mas às vezes adquirimos empatia com medos alheios.

Tendo a acreditar, contudo, que as pedradas reais estão muito longe de serem as maiores causas dos nossos medos. Boa parte de nós enfrentaria com mais coragem um apedrejamento bíblico, do que a perspectiva de ser desamado por alguém que se ama, de novo, ou pela primeira vez. Também nesse caso, que talvez represente, depois da morte, o mais amedrontador dos perigos para a vida dos seres humanos, tendemos a agir da mesma forma: ora somos mais valentes do que seria o recomendável pela nossa experiência; ora somos completos covardes diante de não perigos. Sabemos do sofrimento que o outro é capaz de nos causar, mas insistimos. Ou então: porque alguém me fez sofrer numa relação, não me relaciono mais com ninguém.

Encarar e lidar com as próprias dores nos faz reconhecer a verdadeira dimensão dos danos causados e o perigo que realmente representa a sua repetição. Lembrar que somos únicos e mutantes e que cada encontro é um novo encontro, pode nos tornar menos astutos, porém mais corajosos para explorar a vida.

Por princípio durma sem medo, se a Cuca vier pegar recupere o cuidado, mas pense que pode ser para um agradável passeio noturno e que a companhia da Cuca pode ser inigualável.

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