Escravizados por uma parte de nós mesmos

Cada um de nós é um só, apenas um. E acredito que seja esse um quem precisa tentar resolver a sua equação de felicidade amando e construindo pela vida. Essa equação não tem raízes conhecidas e para viver essa vida somos convocados a sermos muitos: filho, amante e ex-amante, pai, profissional, agente político, exemplo, discípulo, cúmplice, sábio, consumidor, tolo, amigo, valente… Tudo isso, porque não vivemos sozinhos e nem somos capazes de viver. E, “todos esses”, quebrando a cabeça ainda sobre as mesmas variáveis: amor e construção. Acabamos adquirindo certa capacidade para criar e elaborar essas imagens da gente mesmo que o outro enxerga pensando que enxerga a gente por completo.

Nossas imagens projetadas, em alguns momentos, parecem nos trazer recompensas satisfatórias e tendemos a apostar mais nelas. Esmeramo-nos na performance, vivemos o personagem e convencemos quem já estava convencido. Só que os vários ministérios de nós mesmos vão ganhando autonomia e o nosso poder central vai perdendo governança, na medida em que cada parte nos oferece satisfações específicas e momentâneas. Não nos damos conta do processo e os nossos eus vão se apartando de nós.

Muitas vezes, no nosso desgoverno geral, uma ou outra de nossas vertentes assume completamente o poder sobre nós. Algumas vezes assume com tanta potência que não vê problema em nos escravizar. Já fragmentados, passamos a quebrar pedras sem descanso para essa parte de nós, que cada vez exige mais empenho em troca da mesma retribuição. Acabamos viciados nessa escravidão sedutora e esquecemos nossa liberdade original de seres íntegros embora eternamente incompletos.

Não conheço nenhum viciado em alface, mas deve haver também. O fato é que sempre viciamos naquilo que traz alguma brisa. E penso que só viciamos na escravidão por uma parte de nós mesmos pelo barato que isso nos dá, ou seja, outra vez: viagens episódicas e parciais de amor e construção. Viciamos naquilo que parece ser o que buscávamos. Freud talvez dissesse que um sintoma é ao mesmo tempo: um estorvo, um conforto e um indício do nosso desejo real.

Nossos fragmentos sempre nos fazem gozar um pouco, mas no dia seguinte, os outros fragmentos adoecem de ressaca. Abandonar esse vício é tão difícil como abandonar qualquer outro vício, exige sermos capazes de abrir mão do algo que acreditamos ter sem ter, para não abraçarmos o que realmente não tem. Exige trocar a ilusão de completude pela certeza da falta. Quem quer? Quem se dispõe?

Talvez seja exatamente a aflição da solidão e do nosso oco central que nos faz estilhaçar em diversos eus paliativos e acabar viciados neles. Mas se há solução para a nossa equação da felicidade, só nós mesmos, integrados e faltantes é que saberemos.

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