O mundo da fantasia: a fantasia do mundo

Enquanto vivemos, vamos adquirindo coisas, lugares e afetos, mas somos capazes de abrir mão dessas posses quando não queremos mais, quando não queremos tanto, quando não sabemos se queremos mesmo, quando queremos mais outra coisa incompatível com aquela que se tem, quando nos enganamos, ou quando não nos assenhoramos do que podemos desfrutar. Mas aí já não é mais abrir mão. Como não é também quando algo disso é tirado de nós sem que tivéssemos consentido, por isso sofremos. Sofremos também quando descartamos por engano, mas sofremos depois, quando nos damos conta.

Só que, enquanto vivemos, vamos colecionando fantasias também e as fantasias não parecem aquisições. Parecem enredos em que estamos inseridos e que exigem de nós, como se fosse a realidade mesma. Uma verdade é uma crença que se confirma no real. E é sempre bom lembrar que o real não é verdadeiro, ou seja, ele não existe para confirmar nenhuma crença, ele simplesmente existe. Uma fantasia é uma crença que se faz verdade para o crente, sem a prova do real: somos únicos… somos fundamentais… somos amados… somos obrigados… somos suficientes… somos capazes… ou exatamente o contrário, mas a realidade não confirma nada disso. É, muitas vezes, a partir dessas fantasias que buscamos e gerenciamos boa parte do patrimônio de coisas, lugares e afetos que temos, que nos falta, ou que nos sobra.

Como abrir mão das nossas fantasias se quase sempre são elas que aparentemente nos possuem? Se é o nosso próprio sujeito pensante e “desejador” que elas parasitam e deformam? Talvez por isso não abramos mão delas nunca e seja tão difícil livrar-se delas. Não somos capazes de descartá-las simples e deliberadamente como fazemos com coisas, lugares e afetos, porque geralmente não as admitimos como nossas, ou sequer as admitimos. Não estão muito sujeitas às regras das posses ou dos desejos.

Nós não armazenamos fantasias irresponsavelmente e elas não são aleatórias, tampouco gratuitas. São arquiteturas que armamos para tentar conter ou corrigir a realidade naquilo em que não nos achamos capazes de suportá-la. Quando se dissipa uma fantasia é a realidade quem aparece, aquela realidade que tanto nos apavorava.

Quando a realidade se impõe inequívoca – e ainda nos resta alguma sanidade – a tendência é a de que nossas fantasias sejam finalmente subtraídas, mas mesmo assim não sem resistência, não sem lamento, não sem dor. Então, se nos esforçarmos para aceitar a realidade como ela é e para vivê-la plenamente em suas delícias e seus horrores, talvez precisemos menos das fantasias, talvez possamos evitá-las. Mas para isso precisamos ser mais fortes e precisamos ter em mente que a realidade, ao final, sempre será soberana.

ndmolon@gmail.com

2 comentários

  1. Bem, quem já teve o privilégio de conviver mais de perto deste excelente profissional, que carrega consigo, conhecimentos, bases teóricas sustentáveis,inteligência invejável, e acima de tudo, uma humildade de sugerir caminhos para muitos que disto necessitam.
    Newton Molon, é meu colega de doutorado em Psicologia e suas participações positivas enriquecem as classes, deixando-nos por vezes com sede de informações em níveis do qual ele é detentor. Tudo que comenta sempre é muito bem fundamentado. Estes “escritos” que até então não os conhecia, só vem reforçar o que disse com muita propriedade, acima. Menininho, sucesso sempre e até julho rumo a nossa última etapa.

    Geraldo L S de Torrecillas

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s