Nosso medo da solidão

Solidão

Muitos pensadores já concluíram que a morte é o tema fundamental do pensamento humano. Para Schopenhauer a morte é a própria musa da Filosofia e esta, para Aristóteles, o simples preparo para aquela. Montaigne dizia que filosofar é aprender a morrer e mesmo Epicuro que falou da felicidade e da vida, tinha a morte como óbvio contraponto. Acredito que seja assim mesmo, afinal ela aniquila e não dá para pensar nisso a posteriori.

Essa onipotência da morte e seu protagonismo na reflexão humana, felizmente, não fazem dela necessariamente o maior motivo de angústia das pessoas. Quase sempre nos afligimos mais com a fila do Poupa Tempo, do que com o fato de que nossa existência está sempre por um triz: uma veia que entope, um pertence muito desejado por outro, ou um casco vazio de tartaruga que um gavião deixa cair exatamente em nossa cabeça. Ainda bem que é assim, não seria possível viver sem alguma capacidade de desdenhar da morte.

Tenho para mim, contudo, que mais do que a morte, o que nos apavora de verdade é a solidão. Duvido que qualquer religião tivesse sucesso se suas promessas de vida eterna não deixassem em aberto a possibilidade do reencontro em alguma modalidade com quem morreu antes. Ou pelo menos a chance de restabelecer vínculos, mesmo que seja apenas com o criador. Inferno mesmo é a solidão!

Essa sim, a solidão, talvez esteja no topo da lista de razões das nossas mais constantes aflições. Não falo da simples privação temporária de companhia. Quase todos aprendemos a lidar minimamente com isso desde as primeiras mamadas. Não impunimente, é certo, pois datam daí também nossas primeiras alucinações. Mas no geral, entre um “cadê ? e um “achou!” vamos desenvolvendo algum fôlego para estarmos apenas conosco mesmo.

Acontece que, por mais que nos sintamos bem acompanhados quando estamos apenas com nós mesmos, nossa existência plena parece exigir alguma validação externa. Alguém que também veja graça naquela piada, que compartilhe o mesmo pensamento, que sinta indignação parecida, que tenha a mesma esquisitice, que goste do mesmo sabor… enfim alguém outro que possa espelhar um pouco a gente mesmo, garantindo que o sentido que damos para as coisas faz sentido para mais alguém. Inventamos a Comunicação com todos os seus signos para escapar dessa solidão. Primeiro o caos, depois verbo.

Outras espécies, como os felinos, podem lidar de forma diferente com a existência, mas nós precisamos do outro. Somos apresentados ao mundo pelo outro, que também nos apresenta o mundo. E fazemos o mesmo com quem chega depois. É claro que vamos adquirindo relativa autonomia, mas é sempre relativa.

Boa parte das angústias pessoais que ouço no consultório aparecem ampliadas por uma outra clássica e mais geral: será que isso é normal? Essa pergunta é sobre estatística, é sobre solidão. Nossa loucura, quando minimamente acompanhada aflige menos. Vira turma, clube, partido… Se muito acompanhada vira cultura, sistema de governo ou pensamento científico. Não é a loucura que desespera, é a solidão. Assim como os dores dos grandes amores perdidos são as dores de uma solidão que parece irreparável.

Na economia dos nossos afetos, muitas vezes, ofertamos preciosidades em troca de algum seguro ilusório contra a solidão. Outras vezes sonegamos migalhas com a falsa segurança da auto suficiência. Mas a questão é que aquele medo justo de sermos abandonados, que nasce com a nossa impotência de bebês que precisam de calor e alimento, é um fantasma que de quando em quando sempre volta a nos rondar.

Com o passar dos anos, é natural que façamos e refaçamos a contabilidade dos nossos vínculos que não perduraram. E é razoável que nos perguntemos sobre a nossa própria responsabilidade quanto ao isolamento de que cada vez mais nos queixamos em nosso tempo.

É fundamental que nossos maiores investimentos afetivos sejam em nós mesmos, não há de haver culpa nisso. Só é sustentável ofertar aquilo de que não temos absoluta necessidade, caso contrário cobraremos de volta com adicional de perdas e danos. É preciso que a nossa capacidade de amar primeiro nos inclua para que possa verdadeiramente transbordar e assim, quem sabe, contribuir para incluir mais alguém.

Por outro lado, acumular amor por si mesmo pode nos tornar dignos demais, certos demais, perfeitos demais… para mandar uma mensagem tola, para aceitar um convite trivial, para um simples pedido de desculpas, para perceber a solidão do outro, ou para pedir ajuda quando bate a própria. O excesso de amor por si acaba exigindo muito investimento do outro, o que aumenta o nosso risco de solidão.

Os vínculos se formam e se desfazem porque é assim que acontece, eles sempre exigem de ambos os vinculados. Nunca dá para fazer sozinho, portanto não ajuda se culpar pelo que já foi, se é que já foi. O bom é que sempre estamos relativamente perto de alguém, em casa, na padaria, no ônibus, no trabalho… ou ainda perto de alguém cujo vínculo está apenas empoeirado. Em todo caso, não gostar de menos e não gostar demais de nós mesmos pode ser um bom caminho para afastar a solidão.

Newton Molon é psicanalista e escritor

ndmolon@gmail.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s