Integridade Pessoal na Comunicação

Telefone de lata

Um dia desses, minha filha de sete anos que não mora comigo foi descer pela porta errada do carro. Errada segundo a minha análise de segurança naquele momento! Talvez ela estivesse prestes a desembarcar na rua e não na calçada, algo assim.

Na hora, fiz como já tinha feito outras vezes. Lembro de uma em que ela era menor e estava correndo doidona que nem criança pelo parque, só que ia passar atrás do balanço em que uns garotos maiores e felizes estavam tentando chegar ao sol com o seu balançar. O problema é que eles estavam voltando quando ela ia passar!

O que faço nesses casos é falar, mais alto do que costumo, a seguinte frase: “Leila pára pára pára!”.

Deu certo da outra vez e dessa também. Ela paralisou e o balanço passou cinco centímetros dela. Ela paralisou e não desceu do lado errado. Mas ela e eu sempre ficamos com um certo mal estar quando isso acontece. Talvez ela se depare com a minha opressão de pai e eu com as minhas incapacidades expressivas gerais. E eu ainda fico digerindo meus erros de análise. Nesse caso, por exemplo não fazia a menor diferença por que porta ela ia descer, era uma rua sem nenhum movimento.

Ela enfim meu deu uma boa prova de que eu sei como apavorá-la, sem querer, com as minhas palavras. Dessa vez, contudo, depois que eu expliquei para ela os motivos da minha expressão estranha, ela que me chamou à reflexão (é comum acontecer). Me disse assim, meio chorosa e meio altiva: – entendi papai, mas o problema é que quando você faz isso, eu não sei, na hora, com o que é que eu tenho que parar exatamente! Se é de falar… de brincar com o meu brinquedo…

Agradeci constrangido pela aula de comunicação que ela me deu e combinei que, da próxima vez, vou tentar ser mais específico e íntegro como ela foi ao me dizer. Tipo: “Pára. Estátua!” ou “Pára de destravar a porta para descer do lado que te coloca mais em risco minha querida menina!”. Decidi que vou praticar o exercício também com outra expressão familiar que tende a ser polêmica entre nós: “Vai, Leila, pode ir que o papai está aqui contigo!’.

Essa história, contudo, é só uma alegoria para pensarmos um pouco nesse outro mal dos nossos tempos: algo está corroendo nossa capacidade de comunicar o que é essencial para nós, sem confundir o outro.

De pai para filha, de funcionária para patrão, de homem para mulher, de amigue para amigue… de um para o outro, enfim. Por que será que está tão difícil a gente se entender bem ultimamente? Quem pensa a comunicação para além do mercado, ou a Linguística para além da academia precisa refletir melhor sobre isso.

Parece que estamos mesmo perdendo a mão com as palavras. Seja com as que ouvimos, seja com as que proferimos. Quando digo perdendo a mão, me refiro essencialmente ao manuseio cotidiano de duas dimensões das palavras: a precisão dos seus sentidos e o afeto depositado nelas.

Em meio a tantos ruídos atormentando nossas ideias e tantos sentimentos que nos afogam, estamos ficando mais bárbaros com o uso das palavras (Leila pára pára pára”; “fulanoestácopiadonoe-mail”; “a gente marca! bjs”; “amanhã não dá”…). Meio incapazes de escolher dentre elas, as que expressam melhor a mensagem objetiva que queremos transmitir. Meio inábeis para devotar a elas o afeto sincero com que as queremos dizer.

Quando essas duas coisas saem bem juntas nos nossos discursos diários, quase sempre nos sentimos melhor. E não é porque isso nos torna certos com nossas falas para os outros, pode ser bem o contrário como no meu segundo exemplo. Mas talvez porque assim somos mais capazes de sustentar as consequências emocionais delas. Ao dizer o que se acredita, com afeto honesto, sentimo-nos mais íntegros e, assim, mais fortes para seguir nos comunicando, seja com quem for.

Sei que falar em Integridade, num mundo em que tudo é fragmentado, soa arcaico. Talvez seja apenas um lapso romântico de quem aprecia a integridade nas pessoas. Talvez seja a revelação de um segredo de consultório. Ou talvez, um micro manifesto político contra as corporações que andam triturando o planeta, as instituições, as pessoas e a comunicação entre nós.

Seja como for, fica o meu convite à Psicanálise.

 

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