O cachorro e seu osso

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Tem um tipo de sabedoria que eu acho importante nas pessoas. É essa ciência que alguns tem sobre o que querem e o que não querem para si mesmos. Essa disposição intelectual para se interrogar constantemente sobre as próprias vontades.

Não é verdade que, muitas vezes, não reconhecemos nossa vontade nem para ter vontade seja lá o que for? Não sei quase nada de Shopenhauer, mas sei que para ele, esse negócio da vontade era fundamental. O mundo seria basicamente feito dela e da nossa capacidade mental de representação.

Lembro de uma parábola que todo mundo já conhece, mas que talvez sirva para pensar um pouco nisso. A do cachorro que encontrou um osso, mas parou no lago e viu, no reflexo da água, outro osso… abriu a boca para pegar e… perdeu aquele que já tinha.

Sempre sinto empatia por esse cachorro fabuloso e sempre lamento sua falta de sabedoria quanto à hierarquia das suas vontades naquele instante. Se soubéssemos melhor o que realmente desejamos em cada momento, talvez nossa vida ficasse mais fácil. Não falo em absoluto do Pragmatismo de James ou Dewey. E nem acho que essa sabedoria atesta caráter de alguém. Falo apenas da relevância desse conhecimento para cada um.

Nossa vontade, mesmo quando existe, brinca de se esconder da gente. E nem há garantias de ela está em nós. Vale para nossas carreiras, relacionamentos, roteiros de férias, roupas que usamos, entradas de cinema, sexo e pedidos para o garçom. Por isso ela é, no mínimo, um desafio de inteligência.

Talvez seja um pouco por falta dessa sabedoria que hoje em dia o tédio está tão em alta. Estamos quase sempre meio entediados. Chato é aquilo que fazemos sem vontade e fazemos quase tudo sem saber direito das nossas vontades.

A gente vai implorando aos deuses um pouco de resignação e vai fazendo, como pode, todas as chatices que podem ser necessárias, mas que muitas vezes são mais desejadas por outro alguém que sabe melhor de suas vontades.

Resignação é útil, sem dúvida, produziríamos pouco sem ela. Mas ela é de outra ordem. Sem um pouco de sabedoria quando ao nosso desejo, o que fazemos é carregar o osso na boca de lá para cá, sem sequer sentir seu gosto. Que gozo, sem desejo reconhecido?

Penso que a sabedoria, nesse sentido em que me refiro, reforça nossa humanidade perante o cachorro da fábula, perante os outros animais e perante nós mesmos.

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