Problemas contornáveis

Contornos.pngDizem que os tibetanos tem um excelente ensinamento quando se trata de encarar problemas: “se tem solução, não há com o que se preocupar, não é um problema. Se não tem, não há com o que se preocupar tampouco.”

Não sei se é bem assim o ensinamento e nem sei se os tibetanos pensaram mesmo isso ou não. Mas de qualquer forma, entendo que está faltando aí uma coisa fundamental: e como sabemos, aterrorizados diante de um, se esse é o tipo de problema que tem ou não solução?

Nunca esqueci de uma excursão da escola em que o monitor ensinou sobre Cobra Coral Falsa e Cobra Coral Verdadeira. Entendi a questão dos anéis e a do formato da cabeça, etc. Até peguei uma na mão. Depois, crescendo, acabei me confundindo sobre essas questões de veneno e falsidade e hoje não arriscaria diante de nenhuma delas.

Chamamos muitas coisas de “problemas”. Dilemas efêmeros, dores duradouras, encruzilhadas éticas, desejos difusos, cobras no caminho e dúvidas existenciais. Coisas que às vezes não são problemas e coisas que são, mas não são necessariamente problema nosso. Seja como for, a questão é que no curso de cada dia e da nossa vida inteira tem muitas coisas das quais não conseguimos dar conta. Desafios lógico/emocionais que não sabemos se tem solução e nem se temos capacidade para resolver. Problemas que nos paralisam ou nos abatem.

Acredito contudo, que quando sentimos que não estamos dando conta, quase sempre temos alguma ciência da questão em jogo, mesmo que nos faltam os recursos emocionais para lidar com ela no momento. Não me refiro ao famoso saco cheio de tudo e nem aos estados melancólicos, que são bem mais graves. Falo de circunstâncias e aflições.

Nesses casos, é sempre de algo específico que não estamos dando conta, ou seja, quando vem essa sensação, ela vem com uma temática. A doença, às dívidas, a falência da relação, a pressão no trabalho, a perda de alguém… É certo que outras vezes, a temática não parece tão clara e isso torna mais trabalhosa a ciência do problema. Nesses casos precisamos, mais do nunca, saber contornar os problemas.

Sucesso, conquistas e felicidade também exigem sustentação da nossa parte e não é tudo mundo que tem força para isso. Muitos de nós já sentem as pernas bambearem só com a sua iminência. Mas essa modalidade do não dar conta parece um pouco mais complexa e menos familiar, exige contornos mais contrastados. Volto ao tipo mais comum.

Quando não estamos dando conta de algo, ligar os pontos para tentar contornar e circunscrever melhor a essência e a dimensão do problema me parece uma proposta mais eficiente que a dos monges. Ainda não é solução, mas permite que investiguemos a parte de nós que se mostra mais suscetível a essa demanda. Oferece diretrizes para os nossos deslocamentos internos. E no mínimo, nos ajuda a enxergar a integridade de nossas outras capacidades para enfrentar nossos outros problemas, sem que tudo pareça um coisa só. Sem que a circunstância se confunda com a vida e sem que a fraqueza pareça derrota.

ndmolon@gmail.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s