Mania de ter razão

pollockVivemos tempos em que todo mundo tem razão de sobra, mesmo que não tenha razão alguma. Cada um com sua verdade e alguns até com verdades alternativas. Só que está cada dia mais difícil a gente se entender e gostar de estar junto. Talvez estejamos fazendo uso abusivo da razão.

Colegas de trabalho, casais, professores e estudantes, familiares, patrão e empregado, companheiros de gênero, de etnia, de partido; amigos, nações… Todo mundo seguro de sua ciência, coberto de argumentos e alguns até capazes de boas exposições deles. Mas parece que isso não tem ajudado a gente a se dar bem um com o outro.

Não gosto muito de ficar apelando para o orientalismo porque não é disso que se trata, mas lembro de uma historinha dessa tradição que pode iluminar o que quero dizer:

O velho monge contemplava o por do sol, ou o caminho das formigas na relva, tanto faz, quando chegou de visita um antigo e querido discípulo. Assim que se encontraram e cumprimentaram o visitante disse:

– Peço desculpas por não ter lhe trazido um presente.

– Pode deixa-lo aí do lado – respondeu sorridente o mestre.

– Não, mestre, o senhor não entendeu, eu disse que não lhe trouxe um presente – replicou constrangido o discípulo.

– Nesse caso, pode leva-lo de volta – disse o mestre com o mesmo sorriso.

A parábola trata de uma espécie de exercício zen para fugir da opressão da lógica, dessa com a qual estamos mais acostumados desde Aristóteles: se há um presente, há o objeto, portanto não seria ilógico propor alguma ação para esse objeto. Mas se não há presente trazido pelo discípulo…

É um exercício que me parece mesmo bastante útil nesses tempos de verdades e “pós-verdade”, seja lá o que possa ser isso. Nesses dias em que as nossas super razões individuais estão claramente empatando o rolê dos consensos mínimos. Me ocorre que seu uso desmedido esteja comprometendo outras das nossas percepções e isso está sabotando a nossa convivência.

Suponho que um presente não fizesse a menor diferença para aquele encontro e que talvez o trocadilho ilógico do mestre tivesse o simples objetivo de deixar isso explicado. Explicado não, – porque isso ainda seria da ordem da razão – mas sentido.

Como se o afeto presente entre ambos fosse presente suficiente. Como se a reflexão e a argumentação coerente sobre a falta de outro presente não tivessem o direito de roubar a primazia daquele afeto fundamental. Como se o mestre quisesse esfumaçar aquela racionalidade inoportuna com suas palavras loucas.

Nossas racionalizações podem explicar tudo, do mundo e da gente mesmo, só que podem também, dificultar o reconhecimento dos nossos reais afetos e das nossas sinceras emoções. Seja no encontro com o outro, seja nas nossas buscas internas.

Com as nossas razões e verdades, podemos até ganhar os debates e as disputas, marcar posição e demonstrar inteligência, com sorte até conseguir adeptos. Mas nossos melhores e mais prazerosos vínculos são aqueles que cultivamos com carinho, com afeto.

 

ndmolon@gmail.com

 

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