Nossas feras a nosso favor

feras

É muito comum a gente ouvir alguém repetir aquela frase de coronel: “dou um boi para não entrar na briga, mas dou uma boiada para não sair”. Confesso que embora entenda o sentido geral do seu emprego, isso nunca me soou muito bem.

Parece coisa de pacifista, mas no fundo não é. Se estou disposto a arcar com o custo de apenas um boi para não entrar na briga, mas pago uma boiada inteira para continuar nela depois que já entrei, no fundo é porque eu gosto de brigar, apenas prefiro que o outro a inicie, para não ficar tão mal na fita comigo mesmo.

Da mesma forma que sempre achei suspeito o pudor da nomenclatura quanto à segurança nacional. Nunca ouvi falar de um país que tenha Ministério do Ataque, é sempre da Defesa, mesmo assim o povo vai se atacando e o mundo está sempre a beira do colapso. No futebol, vá lá.

Isso faz pensar um pouco nesses desejos que temos nas profundezas da gente que são tão fortes e internamente apavorantes, que a gente faz barbaridades para que não aflorem, para que não se apresentem integralmente, nem para nós mesmos. Achamos que se eles aparecessem, acabariam com a nossa imagem de pessoa.

O exemplo extremo e horrível da homofobia é bem ilustrativo disso. Algo muito poderoso tem que estar ocorrendo dentro de um sujeito que agride o outro por conta da sexualidade dele. Provavelmente alguma coisa em si que encontra forte identificação no outro e cuja repressão desesperada exige a destruição dele.

Processos de defesa semelhantes ocorrem conosco o tempo todo, em intensidades diferentes e com as mais diversas motivações. Talvez tenhamos tanto medo da nossa capacidade destrutiva quando brigamos, que passamos a vida tentando evitar conflito. Ou talvez quiséssemos tanta gente em nossa festa, que deixamos de comemorar o aniversário. Proclamamos que não precisamos daquilo que mais nos faz falta, que odiamos aquilo que amamos, que não temos nem um pouco daquilo que de fato está sobrando.

A vida que cada um vive desde criancinha vai fazendo com que aprendamos a reprimir e reprimir coisas em nós, porque desagradam a família, porque são inconvenientes a tal modelo de sociedade, porque é feio, porque alguém vai ficar triste… Chega uma hora que a gente já faz isso tão bem, que nem admitimos mais que também somos um pouco sujos, um pouco mesquinhos, um pouco preguiçosos, um pouco carentes, um pouco perversos, um pouco diferentes de como nos apresentamos para o mundo.

Só que, assim como o dinheiro, nosso inconsciente não aceita desaforo. Uma hora, às vezes o tempo todo, essas coisas voltam gritando: “ei, estou aqui.” Para lidar com essas inconvenientes erupções, gastamos uma energia danada tentando recompor e reforçar as defesas. Perdemos o sono, o apetite, a alegria…

Quase sempre, quando pensamos em terapia, pensamos por conta daquilo que gostaríamos de mudar. Mas reconhecer e se reconciliar com algumas coisas que são genuinamente nossas pode trazer alívio mais instantâneo.

Pode ser que nossas porções sombrias, só pareçam tão horrendas e tão devastadoras justamente porque ficam enjauladas, no escuro. Quando conhecemos, domamos e incorporamos nossas feras, ganhamos potência para enfrentar nossas próprias vidas, com suas exigências que nem sempre são fofas.

ndmolon@gmail.com

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