Quando a gente deve usar o palavrão

Palavras

Tenho a impressão de que estamos ficando cada vez mais inábeis com o uso das nossas palavras, já nem sabemos mais o que é falar palavrão. E isso vale para patrões ou empregados, democratas ou republicanos. Confundimos naturalmente desculpa com foi mal; crush com amor da vida; job com emprego, etc. Fazemos e recebemos convites mandatórios e teclamos hahaha ou kkkk para coisas que nem são tão engraçadas. Enfim, parece que andamos todos usando nossas palavras tipo assim, de qualquer jeito.

Falo mesmo dessas palavras necessárias ao nosso dia a dia para designar as coisas, descrever as ações, explicar os contextos, expressar sentimentos, compartilhar belezas, dizer bom dia para quem acorda com a gente, ou mandar uma mensagem por WhatsApp.

É claro que são tempos em que as coisas em si estão confusas mas, sem tempo nem paciência para literatura e poesia, suspeito que estamos abrindo mão do prazer humano de usar as palavras. De as inventar, escolher ou articular para comunicar melhor da vida e da gente mesmo.

Lembrando dos tempos de escola, me ocorreu uma imagem pessoal para ilustrar o que quero dizer. Não diz respeito exatamente ao uso das palavras isoladas, mas da língua na sua magia toda:

Para falar da importância da vírgula, dos pontos e das letras maiúsculas, a professora escreveu na lousa, “Inocente não enforque”. Ela disse que era um bilhete da princesa para o carrasco da forca, que esperava o veredito, para abrir ou não o cadafalso. E a questão era que, dependendo das nossas escolhas de pontuação, absolveríamos ou condenaríamos o sujeito que estava lá com a corda no pescoço.

Essa é uma história da minha infância, dessa época que todos tivemos, em que adorávamos balançar no recreio, chupar balas e aprender palavras. Eu gostava do balanço e das balas porque era gostoso. E de aprender palavras, pela mesma razão. Tudo o que a gente quis da vida, em algum momento, era balançar bem alto, chupar bala, entender o mundo e saber o que era palavrão. Mas a gente foi crescendo e desaprendendo a fazer quase tudo isso direito.

Não tenho a menor lembrança do que foi que eu fiz com a minha prerrogativa de vírgulas, pontos e letras maiúsculas naquela ocasião. Não sei se matei um herói, ou se livrei um vilão. Mas acho que aprendi alguma coisa sobre os riscos e as possibilidades da língua.

Dizem alguns que o idioma alemão é o melhor para a filosofia. Isso porque eles tem palavras para designar as coisas mais impensáveis como por exemplo frendschämen, algo como vergonha alheia. Com palavras assim, fica mais fácil ser preciso no que se quer expressar. Get in inglish !

Não digo que precisamos todos aprender a arte e os prodígios de Goethe ou Shakespeare, bastaria que lembrássemos de Ali Baba e do “abre-te sésamo”, ou do “abracadabra” dos mágicos de todos os tempos. Que, ao falar ou escrever, depositássemos um pouco mais de fé na força e na singularidade das palavras que podemos eleger. Nas vírgulas e nos pontos também.

Falta-me repertório para descrever o que acontece quando, no consultório, um paciente encontra uma palavra para nomear um sofrimento seu que, por ser anônimo, nem tinha o direito de ser sofrido. É como se uma rocha se deslocasse desvendando a caverna.

Todas as nossas palavras, se bem ou mal colocadas, podem virar palavrões, para o nosso bem ou para o nosso mal.

E, na nossa vida, muitos sabem disso, o espírito de deus move-se sobre as águas quando estamos desesperados e alguém nos presenteia com esse majestoso casal de palavrões: “conte comigo”.

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