Desaprender para se formar

Escher

Já faz um tempo, na história da humanidade, que nos empenhamos muito em aprender. Pelo menos desde o Iluminismo com seu enciclopedismo, se não quisermos retroceder um pouco mais até o humanismo renascentista. Isso sem entrar no mérito da Escolástica medieval.

Não é o caso aqui de digressão que nos remeta até aquele tipo de aprendizado sobre o fogo e as trilhas do tigre dentes de sabre, sem os quais a espécie não teria vingado. Falo desse aprender compulsório que, independente de conhecimento, confere ao sujeito certezas, diplomas e valor de troca na sociedade. Desse aprender que a indústria consagrou e que nos é mais familiar.

Aprender é tão importante e valorizado que, pelo menos do século XIX em diante, muita gente sabida quebrou a cabeça para entender e explicar como é que a gente aprende as coisas. Filosofia, Psicologia, Pedagogia…

Com a sofisticação do processo de produção de tudo e com a visão de negócio das pessoas de negócios, os conteúdos a serem aprendidos entraram no mercado das commodities. E o espaço do aprendizado hoje pode ser tão etéreo quanto o da bolsa de Tóquio. Dá para “logar” aqui e fazer uma especialização em Harvard de cuecas, ou cortando as pontas duplas do cabelo. É a era do design instrucional!

A despeito dessa trajetória de eficiência, suspeito que os tigres dente de sabre fariam a festa com fraca carne humana hoje em dia. Mas morreríamos todos pós-graduados. Sempre que dispomos de capital para investir, podemos aprender muitas coisas nesses tempos, especialmente as de maior valor agregado. Convivência, por exemplo, não é o foco.

Da mesma forma que vamos aprendendo loucamente sobre os conteúdos que o mundo cobra que saibamos, vamos aprendendo loucamente também os conteúdos sobre nós mesmos. Desde crianças.

Nos ensinam que somos mais levados que nossos irmãos, ou que somos menos inteligentes do que eles. Que somos o herói da mamãe, ou a princesinha do papai. Que não devemos levar desaforo para casa, ou que devemos oferecer a outra face. Aprendemos que somos bons para exatas, ou que temos talento para as artes. Que menino não chora e nem lava a louça…

Ao escrever notei, pela primeira vez, que na primeira pessoa do plural, não é possível diferenciar o presente e o passado do verbo aprender, a não ser pelo contexto.

Do mesmo jeito que a Terra não era o centro do sistema, aprendemos ao longo da vida, sobre a gente mesmo, uma porção de coisa errada e mais uma porção de coisa que não serve para nada. O problema é que já aprendemos e tendemos a operar nossa vida com esse entulho todo.

Não vou conseguir, porque sou aquele que nunca consegue. Não preciso tomar cuidado porque sou aquela que tem sorte. Preciso ser esforçado, porque tenho dificuldade em aprender. Se eu disser que não concordo, perderei esse amor. Homens são assim, enquanto as mulheres são assadas…

Quanta coisa na vida de cada um não vai mal por conta de aprendizados errôneos ou obsoletos? Não seria o caso de reaprender, então? Só que, às vezes, não dá simplesmente para reaprender, sem desaprender o que está aprendido, sobre o mundo, sobre o outro, ou sobre a gente mesmo.

Desaprender é mais difícil que aprender. E sobre isso, falta ciência, falta método, falta escola e falta tutorial. Exige coragem, trabalho, pesquisa e amparo. Desaprender não entra em planos de benefícios, não vai no currículo e não oferece certificado, mas sem desaprender algumas coisas é impossível se formar.

ndmolon@gmail.com

1 comentário

  1. Palmas e mais palmas!!!!
    Grande sacada…
    Acho, pensando no seu texto, que na maioria das vezes, desaprender para reaprender é como tentar abrir a porta do cofre, que penamos para entrar, pelo lado de dentro.

    Curtido por 1 pessoa

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