Rosnar, latir e morder

cérbero

Existem coisas que desejamos e não temos coragem de fazer. Coisas que desejamos e não temos coragem de falar. E coisas que desejamos e não temos coragem nem de pensar.

Inversamente, psicopatas de séries e filmes, por exemplo, fantasiam sobre o assassinato, dão um jeito de comunicar isso aos heróis e executam o crime com deleite. Simplificando, são psicopatas justamente porque não possuem instâncias psíquicas suficientemente capazes de censurar sua passagem de um estágio a outro.

Não é raro que nós, não psicopatas, também desejemos de vez em quando que alguém simplesmente deixe de existir em nossa vida. Chefe, marido, ex, mãe, irmão, colega de trabalho… Mas logo que pensamos no assunto, nos ocorrem simultaneamente os mandamentos e os ensinamentos familiares e acabamos matando logo na raiz o desejo de matar. Ou então confidenciamos o desejo para alguém em momento de fúria, ou em tom de piada. Mas logo somos lembrados da lei, da polícia, da cadeia e do absurdo da ideia. Quase sempre, ao final, seguimos convivendo do jeito que podemos com nossas vitimas potenciais. Que bom que é assim, caso contrário a civilização não seria possível.

Acontece que, além desse desejo extremo e destrutivo, temos muitos outros mais sustentáveis e produtivos que acabam enroscando nessas mesmas instâncias e deixando de ser realizados, para nossa tristeza. Posso citar exemplos bastantes triviais.

Na intimidade de um casal, um dos parceiros tem vontade difusa de experimentar coisas diferentes em seus encontros eróticos. Por que não fantasiar com isso? Por que não dizer ao parceiro? Por que não fazer?

Em um confraternização de rapazes, alguém lança uma expressão de misoginia. Por que assentir? Por que não questionar? Por que não se retirar em protesto?

No ambiente de trabalho, um projeto apresenta falhas que os envolvidos não estão percebendo. Por que não apontar? Por que não argumentar? Por que não apresentar outra possibilidade?

Na atração por outra pessoa. Por que não admitir para si? Por que não comunicar? Por que não se movimentar no sentido dela?

Poderia multiplicar os exemplos de situações em que deixar de pensar, de falar, ou de fazer cobram sua fatura de nós mesmos, aumentando nossas frustrações e nossa angústia no dia a dia.

Assaltar um banco, quando estamos em crise financeira, pode ser um desejo desses muito comprometedores, mas pensar de outro jeito, dizer que não, ou usar meias coloridas podem não ser tão condenáveis quanto a gente cisma que é.

Nossas polícias internas também precisam de revisão periódica, de substituição de peças, ou até de reformas gerais. Elas estão a serviço da nossa proteção, não da nossa tortura e nem do nosso aniquilamento.

Por mais que pesem a cultura, a educação e as instituições, nós também como os cães às vezes precisamos rosnar, às vezes precisamos latir e às vezes precisamos morder.

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