A depilação do Príncipe Harry

Príncipe

Que o ser humano gosta de bisbilhotar, o sucesso da Internet está aí para comprovar. A rede funciona toda na base da espionagem, somos todos um pouco espiões. Queremos saber o que outro está vestindo, falando, comendo e dizendo. E não necessariamente queremos que ela ou ele saibam do nosso interesse. Há protocolos complexos e códigos secretos para desvendar e todo mundo perde um pouco ou muito tempo com isso.

Não sei se é o caso de julgar o caráter humano contemporâneo por isso, até porque acho que foi sempre meio assim. E acho que, se apreciado com moderação, nosso desejo de espiar não chega a ser nocivo. Pode trata-se apenas da nossa necessidade de buscar referências externas a nós mesmos para nos confirmarmos, ou negarmos. Ou da dúvida persistente sobre se somos melhores ou piores que alguém. Ou ainda da nossa necessidade de saber se somos gostados ou odiados. Tudo isso de alguma forma, sempre acaba nos remetendo ao campo da sexualidade também, claro.

Sobre essa questão, aconteceu-me uma coisa curiosa recentemente, e digo recentemente mesmo, nesses dias em que uma chuva de mísseis foi despejada sobre uma cidade cheia de pessoas sem que a espécie humana tenha sido convocada para pensar a respeito, nem antes e nem depois. Nesses mesmos dias, um jornal da cidade me fez uma consulta de tipo psicanalítica.

Tratava-se evidentemente de uma questão bem menor. O briefing me contava que o Principe Herry, herdeiro do trono inglês, estava se depilando e isso tinha saído na imprensa britânica. Reproduzo então as perguntas enviadas pelo jornal e minhas respostas contidas:

 

A depilação masculina é aceita hoje ou ainda é vista como algo feminino?

Uma boa parte das angústias contemporâneas diz respeito justamente a essa necessária abolição dos chamados “papéis” de gênero. E isso vem dentro de algo mais fundamental que é a explosão da própria noção de gênero. Quem depila, quem cria os filhos, quem vota, quem trabalha… tudo isso não tem absolutamente nada a ver com a sexualidade, com as identificações, ou com as fantasias das pessoas. Mas, acostumados a entender o mundo através de papéis e gêneros, fica todo mundo muito confuso. Cresce a angústia geral. E se for o príncipe britânico quem está se depilando, então isso vira pauta internacional.

É difícil para o homem fazer um procedimento que sempre foi muito associado às mulheres (a depilação)?

Nessa lógica dos gêneros em que a pergunta está formulada, pode ser muito fácil, ou pode ser muito difícil. Depende do repertório e da subjetividade de cada “homem” e do medo que cada um tem de ser “mulher” também. Haverá os que encaram otimistas a tortura da depilação inventada pelas mulheres para elas mesmas. E haverá os que seguiram batendo nas mulheres até que sejam interditados.

Mexe com a vaidade ou mesmo sexualidade do homem (porque alguns amigos insistem em fazer piadinhas machistas)?

Deveria ser consenso que uma das características mais marcantes do machismo é a sua burrice cognitiva. Ele é burro no geral também, mas sua burrice cognitiva é ainda mais irritante. Por isso as piadas machistas não tem o direito de ser engraçadas. Falta para elas a inteligência mínima que qualquer piada boa precisa ter. 

Mas a questão nada teórica que importa aqui para o caso do Príncipe Harry é a seguinte: faz diferença para um homem retirar ou não os seus pelos do corpo? Quanto isso aumenta ou diminui sua masculinidade?

1. Faz diferença, claro que faz!

2. Isso pode entrar no jogo sexual, seja num maior contato entre as peles e as mucosas, seja nas fantasias dos tempos em que ainda não tínhamos pelos. O que a jovem princesa Meghan da Inglaterra estará vivendo quanto a isso?

3. Faz porque, seja como for, depilar remete o homem para o corpo do homem para além dos seus músculos e do próprio pênis. E isso é urgente!

4. Faz porque representa alguma despesa ou algum investimento financeiro. E isso é escolha, seja lá para que desejo for. Isso exige determinação do sujeito em qualquer casa e no castelo também.

5. Faz porque representa ação e comprometimento de tempo do sujeito com as suas próprias fantasias. Com todos os custos sociais que isso pode trazer.

6. Mas, se aumenta ou diminui masculinidade, isso é bobagem.

 Em resumo, o mistério bobo e bastante britânico do The Sun sobre se o príncipe Harry é homossexual não será resolvido no episódio em que, o herdeiro passou a se depilar.

E em verdade, isso não deveria fazer a menor diferença para nenhum de nós, porque, de fato, não faz.

Dr Newton Molon – Psicanalista e escritor

 

O resultado da consulta, por fim, foi apenas uma pitada de psicanálise rasa em uma matéria de domingo sobre depilação masculina, ou seja, pura bisbilhotagem de toilete. Nada a ver com a assustadora instabilidade do planeta e nem ao menos com a virilidade do herdeiro britânico.

Mas isso não tem problema e até gostei de contribuir com a matéria. Como disse antes, se apreciada com moderação, nossa bisbilhotice não chega a ser nociva. E pode até ser instrutiva. Mas não acho que seja hora de gastar muita energia com isso. Vejo que estamos todos um pouco mais fracos do que gostaríamos para os nossos próprios desafios diários nesse mundo em que vivemos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s