A Crise dos 30

Não conheço nenhum estudo científico que trate da existência de uma crise que vivamos obrigatoriamente quando estamos na casa dos 30 anos. Não faz muito sentido mesmo, já que cada um vive os seus trinta de um jeito próprio, assim como faz também com todas as outras idades. Além disso, depende de uma porção de outros fatores sociais, geográficos, históricos, etc. Não dá para levar isso muito a sério.

Mesmo assim, a gente sempre pode especular um pouco a respeito e, quem sabe extrair alguma ideia útil para formular ou reformular nossas equações pessoais de vida.

A ideia de crise remete ao seu oposto grego crase, que diz respeito à união. Crise, portanto, tem algo a ver com separação, disjunção, desconexão e por aí vai. Qual seria então a manifestação disso que costuma assombrar as pessoas que beiram os trinta anos?

Não seria absurdo pensar que por volta dos trinta anos, algumas coisas importantes da vida nós já experimentamos. Especialmente aquelas do amor e do trabalho. Algumas foram deliciosas e outras intragáveis. Mas, de um jeito, ou de outro, adquirimos experiência. Seja a de terminar um namoro, a de morar quase junto, a de baixar um boleto, a de ser promovido, ou a de recorrer ao seguro desemprego…

Também já temos um pouco de bagagem acumulada no que diz respeito ao que esperar, ou não esperar, de nossos ídolos, amigos e familiares. Conhecemos melhor os limites da nossa sorte e dos nossos corpos. Percorremos muitos quilômetros e nos defrontamos com variadas paisagens. Já batizamos e já acompanhamos velórios.

Só que a experiência é uma dessas coisas que, aos trinta, ainda não sabemos direito reconhecer na gente mesmo. Ela não parece grande atributo, quando comparada à determinação, ou à disposição que sobram em nós.

Por outro lado, nessa fase, nossas fantasias infantis de vida adulta ainda são muito potentes. Com toda “razão” ainda aspiramos mudar o mundo, ou fazer fortuna, ou construir a família ideal, ou vender coco na praia em regime de poliamor. E ainda sonhamos encaixar os nossos principais objetos de afeto nesse paraíso que almejamos.

Pode ser que a experiência vivida até os trinta reafirme os antigos sonhos e planos para a vida adulta. Daí tudo segue bem, não tem crise dos trinta. Trabalho com o que gosto e prospero. Vivo feliz com quem quero viver para sempre. Moro livre na praia como queria. Reina a harmonia com os meus vínculos mais preciosos …

Pode ser que não. Ganho alguma grana, mas estou no emprego errado. O curso da faculdade foi um terrível engano. Saio, transo, namoro, mas não me conecto. Não consigo ser artista e nem deixar de ser. As pessoas que eu quero bem não são tão legais e tem suas próprias crises…

Talvez o que chamamos vulgarmente de crise dos 30 seja esse descolamento forçado entre o que gostaríamos que fosse e o que está sendo a nossa vida de adulto. Um período em que não estamos certos se devemos seguir assim e ver no que dá, ou se é a hora definitiva de tentar virar o jogo. Um momento de realizar os prejuízos e mudar o nosso investimento na vida, ou de segurar as pontas e aguardar a mudança espontânea da conjuntura, vai que. Uma janela de incertezas que se abre deixando entrar a sensação de impotência, a solidão, a culpa e a visão de que o tempo está passando.

É claro que isso pode acontecer aos 20, ou continuar acontecendo aos 40, 50, 60… assim como podemos passar pela vida sem jamais conhecer esse tipo de crise. Mas quando ocorre, talvez seja uma boa ocasião para atualizarmos nossas fantasias e, quem sabe, reavaliarmos nossas capacidades. A análise pode ajudar nisso.

 

 

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