Ciclos da Vida

CracóviaLogo o inverno acaba e começa a primavera. Quem está mais atento para isso já começa a perceber, no caminho para o trabalho, que tem árvores florindo pelas ruas. Mesmo aqui no trópico, dá para notar. E isso acontece todos os anos, independente dos amores que temos ou não temos; do emprego que amamos, odiamos ou sonhamos; do nosso saldo bancário e do governo que precisa ser eleito ou derrubado.

Anos atrás, eu andava pela cidade polonesa de Legnica. Vinha de trem da região da Cracóvia para a Alemanha e fazia 23 graus abaixo de zero. Nunca tinha sentido tanto na própria pele o efeito real das estações. Compreendi muita coisa da História que tinha lido e dos flagelos humanos que apenas supunha. Mas tenho na minha memória fantástica, que presenciei o momento exato em que o inverno deu lugar à primavera.

Estava amanhecendo e, conforme o sol nascia naquele dia, pude ver pela janela do trem em movimento, que a massa de neve que cobria as casas e as árvores foi se modificando. De branca e porosa, passou a transparente e lisa e, conforme o sol ganhava força, começou a derreter. A paisagem toda foi ficando lindamente vítrea e escorrida, pensei nos relógios de Salvador Dalí. Lembro de sentir naquele momento uma certeza intuitiva e uma espécie de alegria ancestral da espécie pela chegada da primavera.

Estou tratando dessa questão das mudanças de estação, porque acho que nós não damos a isso a devida atenção. As notícias cotidianas dos jornais são importantes e sabem muito bem como dirigir os nossos humores, especialmente essas dos nossos jornais. Amanhecemos derrotados ou otimistas com a vida em função do que dizem do trânsito ou do pacote que será votado no congresso hoje por fulanos tais. Mas esquecemos de reparar em influências maiores.

Confesso que tenho mais disposição para me locomover ao dentista, à aula que vou dar, ou à passeata definitiva, quando não está chovendo. Fico mais introspectivo, estudioso e caseiro quando está frio e mais animado para encontrar pessoas quando é noite de luar. Assim como você, posso lidar com os elementos para ir de encontro aos meus desejos pessoais, sociais, profissionais ou cívicos. Mas não posso negar que a natureza e as estações afetam minhas relações com o mundo e comigo mesmo.

Talvez o mais importante em tudo isso não seja exatamente constatar que mudamos também com as estações. Mas perceber que o tempo não passa reto e louco em direção ao fim, ele se desenvolve em ciclos ao mesmo tempo repetidos e inéditos. Logo começa a primavera de novo e depois o verão… depois essas folhas vão cair e virão novas outra vez.

Temos assim um modelo precioso que pode nos ajudar muito quando se trata de pensarmos em nossas tristezas, em nossas alegrias e em nossas atitudes com a vida. Nossas coisas não precisam dar sempre certo e nem sempre errado. A felicidade como obrigação é marketing e a tristeza como destino é escolha. Em cada novo ciclo podemos rever nossas semeaduras, nossa forma de cultivar, de podar e de colher aquilo que desejamos.

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