Essa tal de inveja cor de rosa

 

Inveja

Dizemos que ela é cor de rosa quando não queremos confessar que é inveja simplesmente. E/ou para ressalvar que ela não compromete o afeto geral positivo que temos por quem nos a inspira.

Porque é rosa e não verde, não faço ideia. Tem gente que chama de inveja branca também. Talvez seja pelo cumprimento da onda, pela excitação óptica que causa, por alguma sinestesia, ou por racismo.

Nesse caso, digo como Goethe que passou boa parte da sua vida maravilhado também com as cores: “Se nossas coisas são verdadeiras ou falsas, assim serão, ainda que as defendamos por toda a vida. Após nossa morte, as crianças, que agora brincam, serão nossos juízes.”

Considero, entretanto, que independente de paletas de cores, essa forma específica de inveja que busca aceitação social integra o problema da inveja em geral. E essa é tão mal vista que nem a publicidade hoje em dia se arrisca a lidar com ela de maneira escancarada, embora ela seja o seu core business. Nos anos 80, anos sem noção, ainda tinha o comercial de uma tesourinha para crianças em que os atores mirins diziam: “eu tenho, você não tem”. Depois os criativos recobraram seu pudor. Digo pudor quanto à inveja explícita, não quanto ao sexismo, ao preconceito e ao mau gosto.

A inveja que sentimos é uma dessas coisas tão difíceis de admitir quanto a masturbação no banheiro, o pum, o dedo no nariz, a bisbilhotagem de internet, ou o tesão pelo namorado da melhor amiga. Ás vezes é mais fácil confessar nossas vontades de agredir, destruir, matar e se matar, do que essas outras ainda mais íntimas.

Melanie Klein problematizou a inveja como ninguém. Mostrou que trata-se de uma questão crucial dos sujeitos. Mas não é o caso aqui de entrar em teorias, apenas de chamar a atenção sobre a naturalidade humana do sentimento de inveja.

Mesmo sem definição teórica precisa, quando falamos de inveja, todo mundo entende do que se trata. Seja porque experimentou de lá pra cá, ou porque sentiu de cá pra lá. É essa coisa frustrante que fica entre a vontade de ser o outro e a vontade de ter o que o outro tem.

Um dia desses, estávamos passeando com minha filha e uma amiguinha, quando aconteceu o seguinte: ambas, com a mesma quantidade de moedas, capturaram cada uma dois bonequinhos em uma dessas máquinas de porta de museu. Ficaram contentes, abriram as bolas de plástico que continham os bonequinhos e começaram a brincar. Estavam as duas orgulhosas de sua sorte. Mas enquanto voltávamos de carro, a situação pesou no banco de trás.

Não havia hierarquia notável entre os atributos dos bonecos. E se houvesse, eles pareciam bem distribuídos. Eram peixinhos, lulas, sapos, sei lá. Não percebemos nenhuma opressão do tipo meu camarão é mais poderoso que a sua tartaruga. Só que uma estava muito contente com os seus bonequinhos e a outra começou a chorar.

Não sei se foi inveja em estado puro, mas fiquei com essa impressão. Eram duas crianças de oito anos. Não era exatamente com a outra, nem os bichinhos que ela tinha. Era uma espécie de tristeza genuína, por não conseguir estar tão feliz quanto a outra estava. Um espelho maldito em que a gente se vê faltante e fica sabendo que Branca de Neve é mais bela.

Sentimos coisa parecida, o tempo todo. O outro e seu trabalho; o outro e seu relacionamento; o outro e seu corpo, o outro e seus pertences; o outro, seus desejos e sua visão do mundo. Essa suposta e insondável completude o outro.

Talvez a modalidade cor de rosa da inveja seja essa em que conseguimos matar no ninho o ódio que brota e aponta em direção ao outro. Mas não confio muito nisso. Vai ver é apenas um afeto ruim que dirigimos a alguém, com certa consciência da brecha que deu. Fiquei com inveja, mas inveja cor de rosa. Fique tranquilo, não pretendo te destruir e nem confessar plenamente que me senti menos do que você.

Reconhecer e falar de nossas invejas não nos protege das armadilhas que muitas vezes são armadas pela inveja do outro, mas nos ajuda a desarmar algumas que criamos para nós mesmos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s