Paradoxo do mau humor

Nuvem

O mau humor é outra dessas coisas misteriosas do ser humano. Sabemos mais sobre separação da Cataluña, fusão de estrelas binárias, fundo de commodities, ou malefícios do glúten do que sobre o mau humor, seja o nosso, seja o do outro.

É que colocamos na conta dele uma porção de coisas diferentes. Funciona como uma espécie de “Diversos” nas nossas planilhas de custos. Eles arrebentam nossos orçamentos, mas seguimos lançando na mesma rubrica, na esperança de que no mês seguinte a sorte seja diferente.

Estou chamando de mal humor um conjunto combinado de quatro fatores: um evento qualquer; o afeto que ele nos causa; a expressão zuada desse afeto que a gente devolve para o mundo, e a duração dessa expressão daninha no tempo.

Pense em uma fechada no trânsito, em uma mudança do horário da reunião, em um meia que desfia, em uma mecha de cabelo que não para no lugar, uma coisa que a gente não acha na hora, ou uma mensagem atravessada de celular. Pode ser qualquer coisa. E não precisa de contextos complexos do tipo crise conjugal, ou necessidade de performar no novo emprego.

No meu caso poderia citar vários exemplos, mas fico com um que explica melhor a insanidade do negócio.

Gosto de utilizar meu tempo livre do trabalho e minhas ferramentas, para fazer brinquedos e coisas de madeira. Quando estou nessa, é pura diversão. Mas confesso que fico transtornado quando, depois de lixar e deixar o negócio bonitinho, erro na relação broca/parafuso/resistência e a madeirinha acaba rachando na hora de montar o troço.

Antes, tinha vontade tacar fogo em tudo quando acontecia. Ruminava blasfêmias contra Jeová, Alá, Chiva e Oxalá. Me sentia injustiçado pelo destino e absolutamente puto! Hoje, quando acontece, ainda sinto tudo igual. Mas aos poucos vou me dando conta de que posso melhorar minha técnica de marcenaria, atenuar a expressão da minha revolta e abreviar o meu tempo de recuperação.

Não cheguei nisso por sabedoria Zen, mas por simples constatação das consequências nocivas do meu “mau humor”. Ele dificulta a realização da tarefa que me propus a realizar e tende a repelir as pessoas que eu queria aproximar com o meu correto proceder.

Existem teorias interessantes sobre os humores. A mais conhecida é aquela de Galeno que, a partir dos ensinamentos de Hipócrates, definiu a existência de quatro humores corporais, cujo desequilíbrio seria responsável por quatro temperamentos: o colérico, o sanguíneo, o melancólico e o fleumático. Os humores seriam produzidos pelo fígado, pelo coração, pelo sistema respiratório e pelo baço respectivamente. Minha fúria, no caso da madeirinha rachada, seria então uma espécie de enxurrada de bílis amarela proveniente do fígado, que tomaria o meu ser inteiro. Depois ela fluiria e reinaria novamente o equilíbrio dos humores.

Não sei se o que estou chamando de mau humor tem mais a ver com bílis, ou sangue; com fleuma ou outra bílis. Talvez não tenha nada que ver com isso. Pode ser que se trate apenas de um tipo de gatilho regressivo que, num instante, leva a gente para a nossa infância remota. Para o tempo da birra e do bico, tempo que a gente cruzava os braços e atrasava o passo em relação à mãe. Porque ela não quis levar o danoninho do mercado, ou porque amanheceu chovendo e já era a viagem para à praia.

Quando éramos pequenos, o tal do Princípio de Realidade ainda era só uma novidade chata que vinha para estorvar o nosso prazer. Mas logo aparecia outro sorvete e outra brincadeira que arrancavam a gente da frustração com a mesma velocidade. Restabelecendo o nosso controle absoluto sobre o mundo.

Depois que a gente cresce, vai ficando claro que a mesma realidade que incomoda e subtrai é a que recompensa e alegra. E que a realidade que não está nem aí para a nossa cara feia.

Deixar prosperar o mal humor quando algo sai errado é como se a gente fosse para o cantinho para deixar o mundo de castigo. É como tentar ganhar o jogo, retirando-se do campo.

 

2 comentários

  1. o ego inconsciente tomado pelo narcisismo se põe como referência em tudo, então o que é visto a seu favor é agradável e desejável ( até mesmo elogio falso e bajulação), enquanto o que é visto contra, mesmo trazendo um alerta ou correção é desagradável e tendemos a agir com agressão e raiva ( tipo uma critica construtiva ou um feedback)

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