Filhos: ter ou não ter?

 

Filhos

É claro que esse dilema de tipo sheakespeariano só se aplica a quem não tem filhos. Aqueles que já tem, se são assombrados por questionamento semelhante, estão mais doentes do Hamlet estava. Arrependimento pode até acontecer, mas tem que passar logo; antes de dar bom dia, antes da próxima reunião escolar, antes do dia de pagar a pensão, antes da próxima refeição.

Falo dessa dúvida mais para aquela turma entre os 20 e os 30 que não tem convicção a respeito e que se pega pensando no assunto de vez em quando, ou o tempo todo. E não me refiro às pressões sociais, “relógios biológicos”, configurações de relacionamento, ou hostilidade do mundo contemporâneo.

Por mais que tente manter distância na abordagem do tema, não tenho como falar, senão a partir da minha experiência de pai agradecido à vida por essa grandiosa oportunidade. Mas essa é a minha experiência até agora, singular como é a de cada um. Não será o foco. Dela, destaco apenas minha compreensão de que ter um filho impacta nossa existência. Nem benção, nem maldição, mas alteração dos afetos reais do ser humano enquanto ele vive a vida e fantasia sobre algum Destino.

Impacta de fora para dentro e de dentro para fora e assim impacta também nossa relação conosco, com as coisas e com o mundo. Às vezes nos faz deslizar para lagos azuis e cristalinos, às vezes sopra nossas velas direto para o olho da tormenta.

Independente de religiões, fofuras e transcendências, é difícil por exemplo, a gente não se afligir e não se enternecer com a visão da fragilidade da vida quando ela começa. Se não gerar pânico, inspira o cuidar, essa beleza da humanidade sem a qual a espécie teria perecido.

Quando a prosperidade da outra vida depende muito do nosso cuidar, somos obrigados a domar nossa brutalidade, essa útil força primitiva que nos impede de ouvir direito, de enxergar direito, de sentir direito e, portanto, de ofertar aquilo que o outro precisa para se sentir cuidado.

Tampouco é fácil passar pelo exercício do cuidado genuíno sem sair com a recompensa desnecessária da gratidão autêntica. Aquela que não confere prêmio ou distinção. Apenas nos devolve a certeza de que não poderíamos fazer diferente. Como no Imperativo Categórico kantiano.

Acontece também do cuidado ser demais, porque às vezes é. Quando já não é o outro que precisa de cuidado, mas a gente que, cuidando, encontrou um sentido maior para a nossa própria existência. Não é simples dosar. Conheço pouca gente adulta que nunca levou choque, nunca martelou o dedo, nunca se arranhou na cerca, ou nunca se ralou pulando um muro. Chega uma hora que é preciso ajudar o outro no cuidado de si.

Constatar que o outro sempre foi um outro, embora não parecesse, é mais um desses impactos aos quais me referia. Como assim meu filho bateu no teu se ele é tão doce como eu? Como assim ela chegou chorando se é tão valente quanto eu? Como não gosta de espinafre? Como tem dificuldade para entender a matemática das coisas? Além disso, ajudar o outro a cuidar de si exige que enfrentemos nossos paradoxos. Exige mais exemplos do que teorias e mandamentos.

E tem a tal responsabilidade, que é cuidado também, mas que envolve a nossa habilidade para nos situarmos no mundo, evoca nossas capacidades de dialogar com ele, de traduzi-lo e de gostar dele por fim. Sempre exemplos, mas também confiança, entendimento, proposição, acordos e interdições, além de leituras compartilhadas desse mundo.

São muitas coisas que impactam a nossa existência, citei apenas algumas que me ocorrem mais prontamente. Ter ou não ter filhos diz respeito sim a nossa segurança afetiva e financeira, ao tempo em que estamos em nossa vida e às fantasias de família e futuro que temos ou não temos. Mas diz respeito mais ainda sobre a nossa disposição para ser, ou não ser. Eis a questão.

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