Como transmitir uma má notícia

Muitas vezes acontece na nossa família, nos nossos relacionamentos, no nosso trabalho… de sermos nós as pessoas que precisam dar a “má notícia”. Seja ela qual for. Um cano que furou, uma meta que não bateu, um projeto que falhou, que você cansou, a infidelidade do parceiro do outro, ou que o ente querido dele ou dela, acaba de falecer. São muitas as más notícias da vida, com as quais precisamos conviver. E muitas vezes somos nós que precisamos transmiti-las às pessoas.

Tenho percebido com a vida que é muito importante a gente saber transmitir uma má notícia. Quando fazemos isso sem nenhuma reflexão, aumentam nossos riscos de emissário. Lembro da parábola sobre o rei que mandava matar os mensageiros que traziam más notícias ao seu reino.

Quando a gente transmite uma má notícia, há um risco grande de que o afeto que temos com o outro seja contaminado pela informação que trazemos para transmitir. Como acontece com as atrizes que fazem vilãs, quando passeiam no Leblon. É como se um pouco da gente ficasse grudado naquela notícia que é ruim para o outro. E isso traz consequências.

A mitologia nórdica conta que Odin tinha dois corvos, Hugin e Munin que durante o dia voavam pelo mundo, Midgard, para ver tudo que acontecia e depois contar à divindade. Hugin era o pensamento e Munin, a memória. Mesmo que fossem mortos em suas jornadas, sempre renasciam pela vontade de Odin. Passa um pouco por essa alegoria medieval a expressão popular “ave de mau agouro” utilizada para designar pessoas que trazem notícias ruins.

Se eu tivesse que sugerir um roteiro de reflexão, antes de se transmitir uma má notícia, diria que devemos começar pelo exame difícil e sincero sobre o quanto aquela notícia é ruim para você e para o outro na mesma proporção. Contar que você foi demitido é uma coisa, contar que sabe que o outro vai ser demitido é bem diferente. Por mais que sejamos solidários.

O passo seguinte seria excluir dessa lista aquelas notícias que são piores para nós do que para os outros. Talvez não sejam más, apenas de outra natureza (podemos discutir sobre elas em outra conversa).

Para avançar, teríamos que entrar nas catacumbas dos nossos pensamentos conscientes, para saber o quanto aquela notícia, que é ruim para o outro, no fundo, é boa para a gente. Seja por que de alguma forma isso parece abrir caminho para nós mesmos; seja porque enfraquece o outro que a gente queria enfraquecer, ou porque agora o outro virá para o nosso time, com sangue nos olhos. Enfim, todas essas tretas do nosso pensamento malicioso que não é totalmente inconsciente.

Então chegaria a etapa da reflexão, em que começaríamos a notar que existe uma soberania em tudo isso que é dada pela natureza do vínculo que temos com a pessoa que receberá a má notícia. E pela nossa empatia com ela. Entendendo-se empatia como a capacidade e a disposição de vestir temporariamente a pele do outro.

Se amamos e temos empatia, tratemos de transmitir a má notícia com a doçura possível e o acolhimento necessário. Os mesmos que nos ajudariam se fosse o contrário. Se odiamos e não temos empatia, então nosso sadismo nadará de braçada. Mas é bom que saibamos que é disso que se trata. E que saibamos nos proteger depois.

Recomendaria então que, quando você for o portador da má notícia, antes de tudo, veja lá o que isso significa para você, daí conta para o outro, do jeito que for capaz.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s