O video game e as nossas fases difíceis

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Quem gosta ou já gostou de video game sabe que tem fases que são mais difíceis de passar. Seja fugir de um bagulho que vem rapidão, ou matar um zumbi parrudo com uma bazuca que atira couve, a gente tenta e morre, tenta e morre, tenta e morre… cansa de morrer. Mas, se não desiste de jogar, uma hora acaba passando. Às vezes é por pura sorte, ou inspiração momentânea, mas às vezes – esse é o trunfo dos campeões – é porque simplesmente a gente pegou a manha.

No video game é mais ou menos assim: tem você, ou algo que te representa; alguma forma de controlar ações; um ambiente circunscrito qualquer; um desafio claro a vencer; oportunidades de ficar mais apto para isso, e tem a onipotência da programação, o tempo todo, tentando matar a gente com suas dificuldades surpreendentes. E tem o nosso desejo de jogar.

A manha, no caso, seria então uma mistura de habilidade nos controles, com antevisão das ferramentas e das tretas que vão surgir. Por isso, se a gente morre várias vezes, mas segue praticando, acaba dando para passar de fase. Trata-se sempre de tentativa e erro ou acerto. E, nesse sentido, todas a fases são um pouco difíceis, até que não sejam tanto. O fundamental é aprender como nos deixamos matar, para não fazer exatamente igual na próxima tentativa.

A metáfora do vídeo game pode nos ajudar a pensar em coisas mais tensas das nossas vidas. Dessas vidas que vivemos com a nossa carne e a nossa subjetividade, sem programadores outros. Com telas sempre diferentes, mesmo que os dramas se repitam. Com fases que às vezes parecem game over definitivo. Vidas que não podemos reiniciar, mas que vamos vivendo, mesmo quando nos falta até o desejo de seguir no jogo dela. Esse jogo que ninguém sabe como ganhar.

É claro, então, que na nossa vida única e preciosa é bem diferente do video game, mas vale alguma atenção para com o seu exemplo, especialmente quanto à questão da tentativa/erro.

Considero que uma das muitas manhas de Freud, nessa outra coisa que é a vida das pessoas, foi mapear algumas componentes psíquicas dessa nossa possível “compulsão à repetição”. Algo que está ligado com as nossas pulsões constituintes. Noções que ele fundou, corrigiu e difundiu com muito esforço científico etc, etc. Não é o caso de discutir isso aqui.

A questão é: por que será que, a gente insiste em fazer as mesmas coisas que já fizemos em cenários parecidos e que sempre nos derrubaram? Já tentamos e morremos sem passar de fase nas nossas famílias, nos nossos empregos, com a nossa grana, nos nossos amores, nas nossas militâncias, com a gente mesmo enfim.

Não conseguimos a promoção porque pegamos o martelo de chumbo, quando o certo era colecionar os troféus dourados. Fomos abandonados por parceiros ou parceiras porque pressionamos demais os controles. Sofremos trapaças de amigos e familiares porque esquecemos o poder da invisibilidade…

Quando novamente existe a chance da promoção, ou um relacionamento novo está se construindo, ou surge outro suspeito pedido de brodagem… Temos todas as possibilidades de fazer diferente dessa vez, mas vamos lá e fazemos tudo igualzinho! Quem nunca?

Pode ser porque, lá no fundo, tenhamos alguns de nós uma certa relação de compromisso com o fracasso e a derrota. Uma certeza sombria e soberana de que, se vencermos, a punição será devastadora. Ideais de bondade, pureza, devoção, caridade, sofrimento… muitas vezes estão a serviço disso, como compensação.

Talvez seja por conta da nossa intensa capacidade de negação: fulana não pode ser assim tão canalha; a diretoria não pode ser assim tão estúpida, as coisas não podem ser tão assim como são.

Ou quem sabe é puro delírio onipotente: sou imortal, meu jeito é o certo e reescreverei as regras do mundo, pronto e acabou! Só que não.

Cada vez que nos vemos abatidos por monstros ou sistemas da vida real, temos uma oportunidade para rever condutas, reavaliar estratégias e checar os arsenais para tentar de novo. Mas quando o tranco que tomamos é muito forte e sobrevivemos, alguma coisa dentro da gente acaba se deslocando. E se isso acontece, nós mudamos um pouco. É como se finalmente pegássemos a manha. Já não seremos mais capazes de fazer exatamente igual e venceremos aquela fase mais difícil.

 

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